Nossa Segurança Parou no Tempo – Parte 2

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Em janeiro do ano passado, publicamos um post falando de segurança nos carros brasileiros (clique aqui para ler) . Normalmente, com o tempo, as coisas melhoram, mas depois da matéria produzida Bradley Brooks da Associated Press (leia aqui o original – em inglês), vimos que a situação é ainda pior.

Sua vida não vale um ponto de solda


Volkswagen Gol 1.6 Sem Airbag

Brooks conseguiu entrevistas com várias pessoas ligadas a indústria automobilística brasileira, e uma das piores constatações é de que aqui as montadoras economizam até nos pontos de solda, que mantêm as partes do carro juntas. Isso resulta em carros mais frágeis. Veja neste trecho traduzido da matéria:

“A eletricidade usada para construir um carro é de cerca de 20% do custo da estrutura,” disse Marcilio Alves, um professor de engenharia da Universidade de São Paulo e um dos poucos pesquisadores independentes da nação olhando para segurança dos carros. “Se você poupa eletricidade, você poupa no custo. Uma maneira de poupar eletricidade é ou reduzir o número de pontos de solda ou usar menos energia em cada ponto de solda feito. Isso afeta a performance estrutural em caso de acidente.”

Está explicado porque um mesmo carro vai muito melhor nos testes feitos na Europa.

Exemplo colocado na reportagem é o do Nissan March, produzido no México, frente ao seu semelhante europeu, o Micra.

O March conseguiu duas estrelas no Latin NCAP, enquanto o Micra, conseguiu quatro no Euro NCAP.

“Em uma declaração por e-mail, a Nissan disse que o March vendido no Brasil é ‘praticamente o mesmo modelo’ oferecido na Europa. A diferença nos resultados alcançados na Europa e na América Latina deve-se as variações nos testes NCAP aplicados em diferentes partes do mundo.”

Sim, a diferença é que o carro vendido aqui não é mesmo vendido na Europa. O diretor técnico do Global NCAP, Alejandro Furas, comentou:

“O March e o Micra foram testados no mesmo laboratório, com os mesmo tipos de bonecos de teste, dentro das mesmas condições, e com as mesmas pessoas conduzindo o laboratório.”

Bom, uma desculpa pode ser o famigerado “custo Brasil”. Nossa energia elétrica é 55% mais cara do que na Alemanha, segundo matéria do site Jalopnik.com.brMas que fosse 100% mais cara, é motivo para deixar pessoas à própria sorte?

A reportagem de Brooks também mostra o lucro alto das montadoras instaladas aqui:

“Montadoras têm 10% de lucro nos carros feitos no Brasil, comparado com 3% nos EUA e uma média global de 5%, de acordo com a IHS Automotive, uma firma de consultoria industrial.”

Ou seja, não vão morrer de fome se soldarem um pouco mais. Mas aí entra o mercado aquecido no Brasil, que não foge da lei de mercado de oferta e procura.

Inimigo íntimo


Ford Ka Sem Airbag

No texto da AP, também é citada a parte de dentro do carro, explicando que a estrutura frágil facilita o movimento da coluna de direção em caso de acidente, fazendo com que a peça se choque contra o motorista. Esta é uma das formas mais comuns e mortais de trauma. Não adianta airbag, se o bloco do motor está vindo em sua direção empurrando tudo pela frente.

A construção ruim dos painéis ainda faz fragmentos voarem pelo interior do veículo causando mais lesões. Em mais uma citação de Marcilio Alves:

“Se a carroceria de um carro não consegue absorver a energia do impacto, isso logicamente resultará em mais danos, mais ferimentos aos passageiros.
“A versão brasileira parece a mesma por fora, mas faltam peças […] Em uma versão eles incluem reforços, na outra não. O que interessa é a forma final. O que está dentro, ninguém pode ver.”

Bem vindo à guerra


Fiat Novo Uno Sem Airbag

Segundo Ministério da Saúde, somente em 2010, 40.610 pessoas morreram no trânsito, com um aumento de 7,5% referente ao ano anterior.

Como base de comparação, o número de óbitos na Guerra do Iraque, entre 2004 e 2009, foi de 109.032. Uma média de 21.806 mortes por ano. Resumindo, é quase duas vezes mais seguro ficar em um país em guerra, do que no trânsito brasileiro.

Ainda, em comparação com os EUA, segundo o texto da AP, os acidentes em 2010 diminuíram em 40% se comparados a década anterior. Enquanto por aqui, aumentaram 72%.

O governo se faz de cego


Chevrolet Celta Sem Airbag

“Em relação aos testes de colisão frontais e traseiros, nossos carros são tão seguros como os europeus ou americanos”. Está frase é de Alexandre Cordeiro, Ministro das Cidades. Bom, não sabemos de onde ele tirou isso, porque todos os testes científicos provaram o contrário.

O governo ainda acredita que apenas a instalação de ABS e airbag, que serão obrigatórios ano que vem, irão reduzir drasticamente as morte no trânsito. Mas isso não é verdade.

Segundo pesquisa conduzida pelo Centro de Experimentação e Segurança Viária (Cesvi):

No Brasil, considerando apenas os condutores de automóveis e camionetas, o potencial do airbag poderia contribuir para, em média, manter a vida de aproximadamente 490 pessoas (1,4% dos 35 mil que morrem por ano) que hoje morrem no trânsito, ou evitar ferimentos em mais de 10 mil pessoas, proporcionando um impacto econômico positivo de cerca de 315 milhões de reais por ano.

Ok, ajuda muito, mas o que fazer com os outros milhares de pessoas mortas?

Além disso, como citado no texto de janeiro, estamos nada menos do que 15 anos atrasados na lei se comparados aos EUA, que tornou o airbag duplo obrigatório em 1997.

E a culpa, é de quem?


JAC J3 Com Airbag Duplo

Do brasileiro, obviamente. Não cobramos melhorias dos nossos governantes, dirigimos fora das leis estabelecidas, compramos carros mortais a preços absurdos, não temos um sistema decente de educação de trânsito, e por aí se segue uma longa lista. Quantos não preferem ar condicionado e rodas de liga leve a airbags e ABS?

A podridão do sistema governo/montadoras/consumidor é tão grande que parece alguma teoria da conspiração, mas é realidade.

Para saber mais sobre o assunto:
Latin NCAP (com resultados detalhados de todos os testes)
Euro NCAP
Unsafe at Any Speed

Links de reportagens com mais informações e opiniões:
http://www.jalopnik.com.br/os-carros-brasileiros-sao-bem-mais-inseguros-do-que-voce-pensa/
http://carros.uol.com.br/noticias/redacao/2013/05/13/imprensa-internacional-descobre-que-carro-brasileiro-e-inseguro.htm
http://www.huffingtonpost.com/2013/05/12/brazil-car-safety-brazilian-autos-prove-deadly_n_3262556.html

Foto:
Latin NCAP

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