Sobre Carros Elétricos e Sua Popularização

 

Começo com um trecho da música World Painted Blood, do Slayer: “o sonho de Gomorra de viver em pecado alcançou a massa crítica”, ou seja, não podemos mais viver nosso modo de vida perdulário esgotando o planeta.
Na busca de uma solução, se fala que os carros híbridos e elétricos são a solução ecológica para nosso ir e vir diário. DESCORDO! A popularização em massa de carros movidos à energia elétrica está como a ficção científica: um dia viram realidade. Mas quando? Precisamos de uma solução agora.

Prius

Toyota Prius

A Toyota lançou o seu carro híbrido o Prius como o salvador dos ursos polares, e ele se tornou o carro com um motor elétrico mais popular do mundo. Mas na verdade, o carro, a longo prazo, tem um impacto maior do que um Land Rover Discovery 3 e seus enormes motores V6 ou V8. Por quê? Leitores e leitoras apresento-lhes a escória de níquel:

Mina de níquel em Ontário, Canadá

Essa paisagem, que mais parece ter saído de um filme do Senhor dos Anéis, fica em Ontário, Canadá. Isto é o que resta da extração de níquel. Esta “coisa” que mais parece lava, é a escória, material que destrói tudo que vê pela frente de maneira irreparável. E isto é necessário para o principal componente da bateria de um Prius, o níquel.

Como se não bastasse, a extração do metal ainda causa chuva ácida, é cancerígeno e gera um monte de enxofre para dar um aroma de inferno à coisa toda.
Continuando o processo, depois de arrancado das entranhas da Terra e atirada escória para todo lado, o metal é colocado em um imenso navio cargueiro, que bebe umas dezenas de toneladas de óleo combustível por dia, e é levado até a Europa (este óleo é o combustível mais sujo extraído do petróleo, e não estou exagerando no consumo, o MV Vale Rio de Janeiro, o maior cargueiro de minério do mundo, consome 96.7 toneladas/dia). Na Europa é refinado e enviado para China, onde é processado e enviado para o Japão, onde finalmente é colocado na bateria do carro.

OK. Mas depois de tudo o carro é econômico, certo? Mais ou menos. Ele faz 25,5 km por litro de gasolina. Parece fantástico perto dos nossos 1.0 “cachaceiros”, mas não é tão bom assim. A coisa fica feia para o Prius se compararmos com o Fiat Panda, com seu motor a combustão, que faz 28 km por litro de gasolina.

Não precisa ser gênio para chegar à conclusão de que este processo não é nada ecológico.

Mas só tem o Prius?

Nissan Leaf

Não. Existem outros carros híbridos e carros totalmente elétricos como o Nissan Leaf, que está sendo testado como táxi em São Paulo, (explicação rápida para híbridos clique aqui).
O Leaf usa baterias de Íon de Lítio, bem menos prejudicial do que o “satânico” níquel da bateria do Prius. Mas o simpático carro da Nissan tem um problema: autonomia.
O carro só pode rodar 169 km com carga total, depois disso serão oito longas horas de espera até recarregá-la em uma tomada de 220v. Fazendo um calculo rápido, uma viagem São Paulo – Rio de Janeiro (446km), a uma velocidade média de 100km/h, demoraria “apenas” 21 horas, isso se você achar três tomadas pelo caminho, e já aviso, não reboque o carro em caso de descarga total porque irá danificá-lo.

Painel do Leaf com autonomia aproximada a direita

Existe uma carga rápida de emergência que leva 30 minutos, mas você vai ter que achar uma concessionária Nissan que tenha o sistema, e não é muito saudável para as baterias (estou falando de Europa e EUA, aqui o Leaf não tem data para chegar para o consumidor comum).
A Nissan ainda se dispõe a oferecer um sistema de socorro, indo dar uma carga rápida no seu carro. Imagine que confortável parar na estrada com sua família e esperar ajuda a cada 169km.

Tesla Roadster

Tesla Roadster

O Tesla Roadster é capaz de rodar uns 300 km com as baterias cheias. Legal, então está resolvida a autonomia? Não! O carro sofre de um sério problema, o “brick”.
Traduzindo, brick, em português significa “tijolo”, e é isso que o carro vira se você não tomar muito cuidado com suas baterias, ele vira um tijolo, um peso de papel gigante.
O caso é bem complicado, ocorre que um Roadster que fique sem carga durante muito tempo, com seu dono viajando, por exemplo, ou mesmo que é conectado a uma tomada que forneça pouca corrente, tem suas baterias inutilizadas, e ainda suas rodas ficam travadas sendo impossível movê-lo, mesmo que até um guincho.

O “tijolo” da Tesla

A solução é trocar as baterias, o que nos Estados Unidos custa US$40.000,00, ou o valor de 2,5 Hondas Fit (preço no país do Tio Sam).
A Tesla ainda não avisa com clareza de que o brick pode acontecer, e trata seus clientes da pior forma possível, culpando-os de terem estragado o próprio carro.
Ainda o programa inglês da BBC, Top Gear, teve inúmeros problemas testando o carro e está sendo processado pelo fabricante.

E o preço desses carros?

Raio X do BMW ActiveHybrid 7

No Brasil ainda não é possível comprar um Prius, se você for desalmado para comprar um depois de explicado o processo da bateria. Mas há opções de carros híbridos, nenhum elétrico. Os modelos a venda são: Ford Fusion Hybrid por apenas R$125 mil, ou Mercedes S-400 Hybrid por modestos R$470 mil, e se você estiver com uns trocados a mais na carteira, um BMW ActiveHybrid 7 sai por R$528 mil. A Toyota promete trazer ano que vem o Prius por R$130 mil, e a Chevrolet trouxe o Volt só a passeio.
Quer dizer, no Brasil, está longe de ser popular.

Tecnologia nova, infraestrutura velha

Termoelétrica a carvão na Alemanha

Existe o argumento de que é uma nova tecnologia, que um motor a combustão do tamanho de uma casa em 1910 rendia um punhado de cavalos, etc.
Primeiro, como falei no começo do post, precisamos de uma solução imediata para poluição causada pelos nossos amados carros, daqui a 100 anos já não dá mais tempo. Estaremos lutando com Humungus pela gasolina.
Segundo, imagine que os carros elétricos ficaram perfeitos: as baterias ficaram leves, boa autonomia, sem processos agressivos para o meio ambiente, sem tijolos, enfim, viraram a perfeição. Pergunta: de onde vai vir tanta energia para carregar uma frota massificada de carros elétricos? Belo Monte? Fukushima? Termoelétricas?
Além do impacto ambiental das usinas de energia, o mundo passa por uma crise energética, ou seja, todo mundo chegando em casa de noite e ligando os carros na tomada resultaria em apagão.

Qual a solução?

Motor Fiat TwinAir que equipa o 500 e o Panda

Eficiência, o motor a combustão pode ser muito mais eficiente do que é hoje. É possível fazer motores muito mais econômicos, como o do Fiat Panda que falei lá em cima, carros com melhor aerodinâmica, pneus com menor arrasto e inúmeros detalhes que fazem um conjunto mais eficaz.
Um exemplo é o Polo Bluemotion (me refiro ao europeu) que é movido a diesel (que não é sujo como o daqui) e faz 30 km por litro com seu motor três cilindros, 1.2, turbo. O Polo não é o máximo que se pode conseguir, ainda pode melhorar, mas já dá uma bela surra no Prius.
Também podemos usar outros combustíveis, não derivados do petróleo, como o etanol e o biodiesel, que eram as joias do governo Lula antes do Pré-Sal.

Mas tem outra coisa, temos que mudar nosso pensamento e nosso modo de vida. Quando se fala em mudar qualquer coisa, a população parece uma criança mimada que foi proibida de comer doce durante a semana e que esperneia e chora. Não dá mais para vivermos nesse zeitgeist consumista sem graves consequências. Não podemos usar imensas SUVs para ir à padaria e ficarmos parados no trânsito. Use suas pernas para trajetos curtos. Tire a bicicleta do limbo da garagem. Tente, eu sei que é difícil, usar transporte público ou dar carona.
Se continuar como está, terminaremos todos como os gordinhos do filme Wall-E.

O carro elétrico ainda não convenceu o GearHeadBanger.

Fonte das fotos:
http://www.automotiveaddicts.com/wp-content/uploads/2009/01/mini-e-plug.jpg
Divulgação Toyota
WINFIELD PARKS/National Geographic Stock
http://better101.com/wp-content/uploads/2011/10/2011-Nissan-Leaf.jpg
http://images.thecarconnection.com/lrg/2012-nissan-leaf-4-door-hb-sl-instrument-cluster_100386742_l.jpg
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/3a/Roadster_2.5_windmills_trimmed.jpg
http://ritchiesroom.com/wordpress/wp-content/uploads/2011/01/tesla-roadster-battery-and-power-management.jpg
http://images.dealer.com/jdpa/vehicles/jdpa/2010/bmw/activehybrid7/1200/10-bmw-activehybrid7-30.jpg
Arnold Paul
Divulgação Fiat

5 thoughts on “Sobre Carros Elétricos e Sua Popularização

  1. Papo Reto

    Abordagem interessante GHB .Sempre achei essa tendencia das montadoras mais populista do que qualquer outra coisa .Ou ,pior ainda ,comercialismo disfarçado de "boas intenções " (né ,FRANK ZAPPA ?) .Tá na moda ser ECO ,e esses modistas consomem produtos ,daí….Como vc disse ,por enquanto ,tudo que apareceu nesse sentido até agora mostrou – se impraticavel e utópico.

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    1. Ricardo Varoli-GearH

      Obrigado!
      Também acho que ninguém ia ser Eco se não estivesse na moda.
      Não entendi a do Zappa. Não conheço muita coisa dele.Só a Black Page nº1 e umas coisas que o Dream Theater põe nas músicas.
      Eu queria que não fosse tão utópico, polição zero seria ótimo. Eu vi outro dia um motor que funciona com ar comprimido. Nada mais simples, entra ar, empurra o pistão, e sai ar. Ainda o motor não esquenta. Quando tiver mais informações e tempo faço um post sobre isso.
      Valeu pelo comentário!

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  2. Papo Reto

    "De boas intenções ,aquele lugar onde o sujeito de chifres ,tridente e cheiro de enxofre toca seu negócio está cheio"F Z .Nâo se sinta mal por nâo ter entendido a citação ,Zappa foi só um chato que se achava a reinvençâo da roda (felizmente superei essa fase….) Outro dia vi algo sobre um carro movido à agua(!) .Tem algo a ver com com "quebrar a estrutura do hidrogenio" (o H do h2o).Voce sabe algo a respeito ?Amanhã tem Imola ,com Massa largando em terceiro.Promete….

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    1. Ricardo Varoli-GearH

      A sim, entendi a do Zappa.
      E também tem o carro movido à hidrogênio. Mas andar com água mesmo, não tinha visto não.
      Sobre a corrida, gostei bastante. Acho que a F1 está em uma fase bem interessante, apesar das criticas. Massa manteve ritmo bom, o "Alonso is faster than you" se repetiu mas em outro contexto, foi ruim mas não como no GP da Alemanha. Perez foi absurdo! Esse cara promete, na minha humilde opinião.

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