Inseguro a qualquer velocidade: nossa segurança parou no tempo

“Unsafe at Any Speed” (em português “Inseguro a qualquer velocidade” – sem tradução no Brasil) é um livro escrito em 1965 por Ralph Nader mostrando como os fabricantes americanos da época eram obtusos em fornecer segurança aos seus clientes produzindo carros que eram máquinas de matar.
De lá para cá, o mundo se esforça para melhorar a segurança dos carros… Opa! O mundo inteiro não! Nós, brasileiros (e também os chineses), ficamos fora dessa.
Aqui, itens que deveriam ser básicos, como ABS e airbag, são artigos de luxo e se salva quem tem dinheiro para comprá-los.
Os testes da Latin NCAP mostraram que nossos carros são tão seguros como fazer roleta russa com uma arma totalmente carregada.

Do começo: como funcionam os testes da Latin NCAP?

A Latin NCAP trouxe para cá um sistema de crash test com as normas europeias. Como o sistema ainda está no início, só está sendo testado o impacto frontal, que já mostra como vários de nossos carros são inseguros. Ainda faltam os testes de colisão lateral, de poste, efeito chicote (colisão traseira que afeta principalmente o pescoço) e colisão com pedestres.
Diferente do teste mais conhecido em que um carro colide com uma barreira indeformável a mais ou menos 50km/h, o teste é feito com uma barreira deformável, com o carro colidindo com a metade esquerda da frente a 64km/h. Isso simula a maioria dos acidentes com ferimentos graves ou mortais.
Veja o vídeo abaixo para entender melhor:

Resultado…

… uma desgraça. Começando do pior, o Chevrolet Classic sem airbag que conseguiu apenas uma estrela para adulto e criança. Segundo o relatório da Latin NCAP:

Passageiro adulto: A pontuação para o Classic foi limitada a uma estrela devido ao alto risco de morte decorrente do impacto da cabeça do motorista no volante. A proteção do peito foi baixa, e existem estruturas perigosas na parte baixa do painel que poderiam comprometer os joelhos dos passageiros. A carroceria não foi capaz de suportar carga adicional e o rompimento do assoalho representa uma ameaça para os membros inferiores do motorista.

Passageiro infantil: A cadeira infantil para crianças de três anos não conseguiu evitar o excessivo deslocamento para frente na colisão, mas não houve contato da cabeça com o banco da frente. As instruções de instalação para ambas as cadeirinhas foram insuficientes porque as instruções não estavam afixadas no equipamento de retenção. A cadeira para crianças de três anos era incompatível com o cinto de segurança do veículo.

Traduzindo, a pessoa que pagou R$28.600,00 no Classic (com esse valor poderia ter comprado um Corsa na Inglaterra com 5 estrelas no NCAP) tem altas chances de ter ferimentos sérios ou mesmo morrer em um impacto frontal.
Veja o vídeo:

Uma coisa que me assusta em particular é que minha sogra tem um carro desses, e eu comprei recentemente um Ford Ka, que obteve 1 estrela para adulto e 3 para infantil.
Concluo que, mesmo pagando bem caro, as montadoras nacionais preferem economizar uns trocados (como as americanas em 1965) ao invés de dar segurança para mim, para minha família e para você, caro leitor.
Está se sentindo mal? Espere um pouco porque a coisa piora.

O mesmo carro para Europa e Brasil?

Não. Se compararmos o teste do Toyota Corolla vendido na Europa com o vendido no Brasil temos resultados diferentes.
O europeu obteve 5 estrelas para adulto (incluindo os testes que não são feitos aqui) e 4 para criança, diferente do daqui com 4 estrelas adulto e UMA para criança. Interessante não?

Corolla europeu (com os testes adicionais):

Corolla nacional:

E o chinês?

O teste da Latin NCAP foi feito somente com um chinês, o GEELY CK 1 (não vendido aqui). Este não atingiu nem uma estrela para adulto e só conseguiu 2 estrelas para criança porque, de tão frágil, a carroceria absorveu mais impacto, ao custo da vida dos pais da criança.
Segundo relatório da Latin NCAP:

Passageiro adulto:
A proteção oferecida ao motorista foi pobre para a maioria das áreas do corpo, a proteção do peito foi fraca. Foram experimentadas grandes cargas em todas as partes do ventre do boneco. O colapso de um número importante da carroceria produz um grande deslocamento do pilar-A, coluna de direção e pedais. A carroceria não pôde suportar nenhuma carga adicional. A instalação de airbag nesse carro não melhoraria a proteção oferecida aos ocupantes, já que a integridade da carroceria não é boa. A instalação de airbags nesse carro não melhoraria a fraca integridade da carroceria. Este carro apresenta um switch para o airbag, porém NÃO TEM airbag; esse dispositivo pode confundir os consumidores, fazendo-os pensar que têm um carro com airbag quando, na verdade, não é assim.

Passageiro infantil:
O sistema de retenção infantil para a criança de 18 meses apresentou um desempenho adequado. O sistema de retenção para a criança de 3 anos atingiu pontuações máximas graças à carroceria extremadamente fraca que contribuiu para a absorção da energia do impacto. Contudo, as instruções de instalação eram insuficientes em ambas as cadeirinhas infantis, não ficando unidas a elas. As cadeirinhas recomendadas foram incompatíveis com o sistema de cintos de segurança do carro. Este carro não contava com airbag para o ocupante da frente.

Aí está o filme de terror:

Só para comparar, o teste da Euro NCAP com o Volvo V60 que obteve 5 estrelas:

Quanto custa a segurança?

Segundo a Latin Ncap (link), um airbag custa míseros 50 dólares para ser produzido, ou seja, sua vida vale no máximo US$49,99.
Já para o consumidor final, no Ford Ka por exemplo, airbag duplo só na versão topo de linha que sai por R$31.590,00 contra R$24.500,00 da básica. O Classic não tem opção de airbag nem pagando o dobro do preço. Um Novo Uno, segundo o site da Fiat (Fiat.com.br), precisa da inclusão do Kit Celebration 5 ou 6 (por que?) para incluir o airbag, o que custa R$6.869,00 a mais.
Nos Estados Unidos, o airbag duplo é obrigatório desde 1997. Por aqui só em 2014, isso se restar motorista vivo.
Por curiosidade, o primeiro airbag é de 1973.

De quem é a culpa?

A culpa é NOSSA. Compramos carros por um preço estúpido e não reclamamos de nada. Se continuam nos vendendo carros inseguros, é porque compramos.

Para saber mais:
Latin NCAP (com resultados detalhados de todos os testes)
Euro NCAP
Unsafe at Any Speed

Fonte da foto:
http://payload.cargocollective.com/1/1/34851/1041726/NK_Dummy_A.jpg

4 thoughts on “Inseguro a qualquer velocidade: nossa segurança parou no tempo

  1. JORGE ALMADA

    Recentemente tive a infelicidade a presenciar a morte de duas pessoas CARBONIZADAS após colisão frontal entre dois automóveis. As chamas propagaram rapidamente consumindo um dos autos vide foto, abaixo, em poucos minutos.
    Trabalhando há 30 anos como Engenheiro Químico, especializado em materiais – Plásticos e Borrachas, venho aqui, denunciar que os testes de combustibilidade destes materiais plásticos e borrachas, feitos em laboratórios nunca se aproximam de uma situação real.
    As borrachas são compostos por elastômeros e aditivos óleos minerais, sendo que estes últimos são altamente voláteis e combustíveis. E no Brasil o mercado de reposição( mercado paralelo) desconhece as normas de combustibilidade dos materiais.
    Os plásticos mesmo os mais resistentes a propagação da chama, com aditivos antichamas, amolecem e derretem( gotejam) e acabam contribuindo para ampliar a área de queima( combustão) e depois passam ser combustível, acentuando a queima pela elevada taxa de evaporação do álcool.
    Os carros populares não possuem corte de combustível em caso de colisão , o que faz que a bomba de combustível trabalhe , envie combustível e continue a alimentar as chamas; neste caso , VIDE ABAIXO, as chamas chegaram a mais de 3 metros de altura.
    As Engenharias buscam fazer autos mais leves, chapas de aço finas com objetivos de redução de peso( economia de combustível) , redução de custos e energia de impacto. Cabe lembrar que as chapas tem que ter um mínimo de espessura pelo menos para suportar após a colisão uma estrutura suficiente para impedir a total desintegração do veículo. Nos carros populares no Brasil sentimos como se estivemos dentro de uma lata de alumínio (refrigerantes), face a facilidade que se amassam e mutilam.

    No Brasil o carro popular custa muito caro , a margem de lucro é altíssima e nossas autoridades pouco cobram sobre a melhoria da segurança veicular. Os nossos automóveis são os mais caros do mundo.

    O lucro está acima da preservação da vida e se pessoas como eu não continuar a insistir em divulgar nos meios de comunicação estes elementos e cobrar melhorias , poucas coisas serão feitas ou se levará muito tempo para corrigi-las. Abaixo, acrescento uma normalização do Contran, veja o absurdo a que ponto chegou.
    Estes Dados estão na Internet, fabricante de material plástico (ABS) para interiores dos automóveis.

    Em termos mundiais o crescimento anual dos aditivos antichama é de cerca de 8-10% devido às grandes exigências impostas pelos órgãos governamentais em determinadas aplicações. No Brasil o consumo ainda é considerado muito pequeno, pela inexistência de leis que regulamentem e exijam a utilização eficaz. Por exemplo, na indústria automobilística a exigência para a velocidade máxima de propagação do fogo nos revestimentos internos é de 80 mm/min nos países desenvolvidos; esta exigência no Brasil, pelo Contran, é de 250 mm/min .

    Tenho assistidos inúmeros vídeos de veículos pegando fogo, normalmente um carro popular quando inicia a chama na parte frontal do veículo, a chama leva aproximadamente 3 minutos para atingir sua parte interna (painel) e mais 4 minutos para concluir toda a combustão interna, ou seja após 7 minutos o tanque já esta em combustão.
    Estatísticas de Incêndios no Estado de São Paulo
    Corpo de Bombeiros

    Automóveis = 76 %
    Outros = 24%
    Fonte: A importância do Extintor veicular • Nonos Prevenção Online
    Quanto a resistência a colisão o Brasil todo já conhece o CRASH TEST e são poucos que cobram melhorias das performance quanto a preservação estrutural e/ ou mesmo reforços estruturais e projetos mais seguros , compra-se automóveis por beleza, luxo, e design , etc. mas não se compra pensando em segurança.

    Reply
    1. Ricardo Varoli-GearH

      Jorge,
      Obrigado pela aula!
      Não havia pensado no caso de incêndio, agora vejo que a situação está pior ainda.
      A foto que você citou não apareceu, mas solicito que não coloque caso seja de teor muito forte, pois não é o intuito do blog.
      Obrigado mais uma vez pelo comentário de grande valia!
      Continue comentando!
      Abraço!

      Reply
  2. Pingback: Sauber corta carro de F1 ao meio | GearHeadBanger

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